Mais da metade das espécies de café corre risco de extinção

Mais da metade das espécies de café corre risco de extinção
07 fev 2019

Dois estudos desenvolvidos pelo botânico Aaron P. Davis, líder de pesquisa em café do Royal Botanic Gardens de Kew, no Reino Unido, e sua equipe, publicados em janeiro nos jornais científicos Science Advances e Global Change Biology, chegaram à conclusão que 60% das espécies de café conhecidas no mundo correm risco de extinção. Inclusive o arábica (Coffea arabica), o café mais consumido no planeta e que cujo cultivo é uma atividade importante em diversos países de clima tropical, especialmente o Brasil, sendo responsável por US$ 13 bilhões em exportações por ano em todo o mundo.

Os motivos principais, de acordo com Davis, seriam o desmatamento e aquecimento global, além da propagação de doenças e fungos patogênicos. “No caso do arábica, as mudanças climáticas têm um impacto ainda maior em sua sobrevivência do que o desmatamento”, explicou o cientista, em entrevista à BBC. “O arábica é classificado como ameaçado de extinção na natureza e é a única espécie [de café] que tem projeções de mudanças climáticas incluídas em sua avaliação de risco de extinção”, completou.

Foi a primeira vez que os pesquisadores analisaram o risco de extinção de todas as 124 espécies de café conhecidas, aplicando a metodologia da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). As conclusões são baseadas em mais de 20 anos de análises e, ao final do estudo, utilizando os critérios da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN, chegaram ao preocupante número de 75 espécies – que representam 60% do total de espécies de café do mundo.

Calor como ameaça

Os problemas para a sobrevivência do café arábica em um cenário de elevação de temperaturas já haviam sido revelados por esses pesquisadores em estudo publicado em 2012. Na época, por meio de simulações de computador, eles conseguiram prever o impacto do aquecimento global na produção da planta – concluindo que as áreas propícias ao cultivo do arábica podem ter uma redução de 85% até 2080.

Nas pesquisas atuais, a equipe do instituto deteve-se no estudo das espécies de café como um todo. Segundo comunicado do Royal Botanic Gardens, “os resultados dos estudos publicados hoje são extremamente preocupantes” para a indústria do café.

Atualmente, duas espécies dominam o mercado mundial de café: cerca de 60% são Coffea arabica e o restante é Coffea canephora, o robusta, sendo que esta não está na lista das ameaçadas. Considerando apenas o consumo humano, a preocupação dos cientistas com as demais 122 espécies tem um motivo: montar um banco genético, para garantir o desenvolvimento e a melhoria das plantas hoje cultivadas comercialmente, no caso das dificuldades para o cultivo dessas atuais espécies comerciais de café.

Variedades resistentes a doenças e capazes de resistir à deterioração das condições climáticas estão na mira dos pesquisadores. “Para proteger o futuro do café, é necessário tomar medidas urgentes em países tropicais específicos, particularmente na África”, diz Davis, que usa o exemplo do robusta para apontar como outras espécies hoje silvestres podem vir a ser utilizadas, no futuro, pelo melhoramento genético.

Essa variedade, cujo uso cresce anualmente não havia sido utilizada para a produção fora da África até o início do século 20. Hoje é forte no Vietnã e, no caso do Brasil, no Espírito Santo, Rondônia e Bahia.

“Trata-se de espécie que só foi conhecida pela ciência em 1897”, afirma Davis. “É um exemplo de uma espécie selvagem subutilizada por muito tempo que acabou se tornando uma mercadoria de bilhões de dólares em apenas 120 anos. Isto porque seus genes são utilizados na criação de cultivares resistentes a doenças de café arábica. Ou seja: sem o uso dessa espécie silvestre a paisagem cafeeira do mundo ficaria muito diferente do que é hoje”, completa o especialista.

Espécies silvestres para garantir o futuro da atividade

“Esperamos que nossas descobertas sejam usadas para influenciar o trabalho de cientistas, autoridades e todos os envolvidos, a fim de garantir o futuro da produção de café – não apenas para os amantes de café em todo o mundo, mas como uma fonte de renda para comunidades agrícolas em alguns dos lugares mais pobres do mundo”, afirma o cientista do Royal Botanic Gardens.

Para o pesquisador, a solução está na volta à natureza selvagem. “Nosso trabalho deixa claro que áreas ambientalmente protegidas exigem mais recursos para que possam incorporar mais e mais espécies de café, com maior diversidade genética, e melhorar suas instalações e sua gestão”, defende, citando o exemplo de países africanos como Etiópia, Tanzânia, Camarões, Angola e Madagascar, que “abrigam os mais altos níveis de diversidade de espécies de café silvestres em todo o mundo”.

De acordo com Davis, a utilização comercial de espécies de café silvestres “pode beneficiar a sua sobrevivência, pois as espécies mais valorizadas são frequentemente prioridades mais óbvias para a conservação”.


Foto: Tales Azzi/Pulsar Imagens


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