E se todo mundo consumisse como você?

E se todo mundo consumisse como você?
07 ago 2014

Uma perguntinha simples ficou martelando na minha cabeça: se todo mundo consumisse como eu, quais seriam os impactos? Todas as vezes que compro algo novo procuro refletir sobre os recursos naturais que foram extraídos, sobre a mão de obra que foi utilizada e sobre a distância que a mercadoria percorreu. Com esses dados, reavalio a necessidade da compra. O exercício já se tornou automático, mas será suficiente?

Há quase dois anos reparei que minhas roupas já não cabiam no armário e que os cabides estavam em falta. Cheguei a encontrar uma peça que escorregou e acabou escondida por meses, sem que me fizesse falta. Será que eu precisava realmente dela? Ou ainda de um espaço maior para guardar mais roupas (das quais não dou falta quando somem)? Decidi, então, declarar guerra contra meus hábitos de consumo.

Eu tinha acabado de completar 18 anos quando tomei a decisão. Para mim, era um grande passo. Fui criada em uma família em que o programa de final de semana era ir ao shopping, onde as promoções das lojas eram um evento quase que santo e um preço baixo não deveria ser ignorado. É certo que minha mãe também me levou muito ao teatro, cinema e me dava muitos livros. Mas as compras me marcaram muito.

A medida de greve-de-compras-de-roupas-e-sapatos não foi por acaso. Um mês antes havia visitado a Ecovila Clareando, que fica na cidade de Piracaia, em São Paulo, para um curso de bioconstrução. Lá o meu celular não pegava e o Wifi não existia. A experiência foi como se, por quatro dias, eu tivesse me desconectado do mundo corrido e angustiante e encontrado o paraíso, onde a conexão era comigo mesma e com a natureza. Além disso, acabei conhecendo pessoas incríveis, que me marcaram profundamente e ensinaram o que é viver em comunidade. Quando fui embora, prometi a mim mesma que voltaria o quanto antes.

Duas semanas depois me vi na cidade grande, comprando mais roupas. Qual era o sentido daquilo, afinal? Hoje enxergo como uma espécie de válvula de escape. De certa forma, era uma maneira de me completar e me encaixar em uma sociedade com valores deturpados. Passar o cartão de crédito e ficar satisfeita por um determinado período era tão prático. Mas a medida é temporária e o vazio nunca preenchido.

Uma pesquisa realizada no final de 2013 revelou que, apesar de 88% dos brasileiros acreditarem ser moderados ou conservadores na hora de fazer compras, 47% adquirem produtos que nunca usam. Isso é uma baita contradição! E se o mundo inteiro também agisse desta forma? Estamos fazendo a nossa parte?

A atitude dos brasileiros pode ser explicada por uma série de fatores psicológicos e socioeconômicos. Assim como eu (antes dos 18), outros 59% da população acredita que alguns agrados são merecidos, afinal “dou duro o dia inteiro e vivo nesta correria estressante. Claro que mereço um par de sapatos novos”.

Além disso, a sociedade te faz acreditar que você é o que você tem. Existe uma grande cobrança para que você se vista bem, tenha os aparelhos de última geração e pareça sempre bonita e bem disposta – sem olheiras, claro. É de extrema importância, dentro desta lógica, manter as aparências, mostrar sua classe social e seu poder de consumo. Você precisa acompanhar seus colegas, se não se torna um loser! Acontece que essa busca é infinita, os objetivos sempre se multiplicam e você nunca estará satisfeito, porque não é o consumo que te preencherá de verdade.

Para mim, ainda há muito a ser percorrido. Preciso repensar meu supermercado e refeições, por exemplo. Mas acredito ter tido bons resultados. Nos últimos dois anos eu comprei três coisas:

– Uma sapatilha feita por uma ONG que recicla borracha e capacita profissionais;
– Uma sandália baixa, porque a minha estourou;
– Uma blusa de crochê laranja, porque achei muito bonita.

Ganhei algumas peças de roupas da família, o que me deixou um pouco irritada, pois acaba com meu exercício de escolher minhas próprias roupas e repensar minhas necessidades – confesso que a maioria ainda nem usei.

E você, o que comprou nos últimos dois anos?

Foto: orinrobertjohn/Creative Commons



Jéssica Miwa
Jéssica Miwa

Mãe do Gael, Googler, jornalista e cofundadora do The Greenest Post. Acredita em pequenas ações que podem mudar o mundo.

Observações

  1. que maravilhoso isso! há dois anos, resolvi mudar um pouco a vida. buscar coisas que realmente me façam bem e que possam deixar o mundo melhor (nem que seja mínimo o resultado). depois de perder (ganhar!) um tempo aqui, lendo as matérias, fiquei ainda mais inspirado e to sendo grato pelas ideias novas.

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